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A historia do velho Búzio

03 Nov

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Meu nome, Gustavo, eu estava sentado sem nada para fazer nas primeiras horas da manhã de terça feira, eu levo o meu livro da lingua portuguesa na mochila, mas no fundo eu vi o trabalho de Sophia de Mello que estava para começar a ler as horas de trabalho chato. Mas eu decidi avançar a sua leitura nesse momento mesmo, uma vez que igualmente tinha tempo para atualizar o meu entendimento e gestão desta bela língua que foi o meu presente de meus dias no Porto nas mãos da amiga muito hospitaleira Ana Teresa Oliveira Carvalho.

Assim sendo, me deparei com a história curta do velho Búzio, o homem pálido com uma tez escura e barba branca:

“Quando eu era pequena, passava ás vezes pela praia um velho louco e vagabundo a quem chamavam o Búzio.

O Búzio era como um monumento manuelino: tudo nele lembrava coisas marítimas. A sua barba branca e ondulada era igual a uma onda de espuma. As grossas veias azuis das suas pernas eram iguais a cabos de navio. O seu corpo parecia um mastro e o seu andar era baloiçado como o andar de um marinheiro ou de um barco. Os seus olhos, como o próprio mar, ora eram azuis, ora cinzentos, ora verdes, e às vezes mesmo os vi roxos. E trazia sempre na mão direita duas conchas (…)

O Búzio aparecia ao longe. Via-se crescer dos confins dos areais e das estradas. Primero julgava-se que fosse uma árvore ou um penedo distante. Mas, quando se aproximava, via-se que era o Búzio.

Na mão esquerda trazia um grande pau que lhe servia de bordão e era apoio nas longas caminhadas e sua defesa contra os cães raivosos das quintas. A este pau estava atado um saco de pano, dentro do qual guardava os bocados secos do pão que lhe davam e os tostões. O saco era de chita remendada e tão desbotada pelo sol que quase se tornara branca.

O Búzio chegava de dia, rodeado de luz e de vento e, dois passos à sua frente, vinha o seu cão, que era velho, esbranquiçado e sujo, com o pêlo grosso, encaracolado e comprido e o focinho preto.

E pelas ruas fora, vinha o Búzio com o sol na cara e as sombras trémulas das folhas dos plátanos nas mãos.

Parava em frente de uma porta e entoava a sua longa melopeia ritmada pelo tocar das suas castanholas de conchas.

Abria-se a porta e aparecia uma criada de avental branco que lhe estendia um pedaço de pão e lhe dizia:

Vai-te embora Búzio.”

Por Sophia de Mello Breyner Andersen

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Publicado por en 03/11/2015 en Espectáculo

 

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